Tornou-se quase um ritual nos ecrãs portugueses: André Ventura, líder do Chega, debatendo-se aos gritos com imigrantes africanos nas ruas. Lá está ele, mangas arregaçadas, dedo em riste, voz tonitruante, cercado por câmaras e transeuntes.
A ladainha repete-se: Portugal acima de tudo, imigração fora de controlo, os valores tradicionais em erosão. E, no entanto, se observarmos com atenção, algo de inesperado (até desconcertante) começa a emergir.
Ventura revela-se surpreendentemente à vontade com os africanos que critica.
Num vídeo que recentemente se tornou viral, vemos o deputado discutir acaloradamente com uma mulher angolana.
O tom da conversa — ríspido mas quase familiar — recorda as discussões de primos em festas de família: há indignação, mas também cumplicidade. No fim, ele afasta-se com um meio sorriso e, num gesto quase instintivo, beija-lhe a face. O que fazer desse beijo? Como reconciliá-lo com a retórica de exclusão?
Talvez comecemos por reconhecer o óbvio: André Ventura não tem o perfil clássico do racista ressabiado. Não é um pintor frustrado a imaginar que o mundo da arte é dominado por judeus, nem um ex-cabo embriagado a ruminar fantasias imperiais num café de província. É, pelo contrário, um produto típico da elite secular e educada da Portugal contemporânea, com todas as contradições que isso acarreta.
Antes de ingressar na política, Ventura teve uma carreira multifacetada. Licenciado em Direito pela Universidade NOVA de Lisboa, doutorou-se em Direito Público na University College Cork, na Irlanda.
Lecionou nas universidades Autónoma e NOVA de Lisboa, foi consultor jurídico da Autoridade Tributária, trabalhou em firmas de prestígio como a Caiado Guerreiro e a Finpartner, escreveu dois romances — Montenegro e A Última Madrugada do Islão —, foi comentador desportivo na CMTV durante anos (sempre em defesa do seu Benfica) e, na juventude, frequentou o seminário de Penafirme com aspirações ao sacerdócio, acabando por sair após se apaixonar.
É difícil associar essa biografia tão plural ao extremismo simplista. Mas talvez seja justamente essa bagagem que torne Ventura tão eficaz: ele conhece bem os códigos do mundo que agora finge repudiar.
Já vi racistas autênticos: o olhar frio, o desconforto visceral, o medo mascarado de moralismo. Ventura é outra coisa. Faz lembrar aquele tio branco num casamento misto: discute alto com os parentes de Luanda, mas no fim acaba por dançar kizomba, exagera no funje, e trazer uma prenda para o bebé do casal.
Não se trata de desculpar o conteúdo. As palavras de Ventura ferem: falar em “deportações”, em “criminalidade africana”, alimentar estigmas contra ciganos e pretos — tudo isso envenena o espaço público e compromete a ideia de uma Portugal plural. Mas a sua postura corporal, o à-vontade nos confrontos, introduz uma nota inesperada de ambiguidade.
Será que Ventura acredita mesmo em tudo o que diz? Ou será que representa um papel — um performer da indignação, ao serviço de um eleitorado que anseia por certezas num mundo em mutação? Há momentos, sobretudo quando dialoga com africanos lusófonos, em que parece demasiado confortável. A agressividade soa ensaiada. O dedo em riste parece prestes a transformar-se num abraço.
Há dias, ouvi um comentador angolano na rádio dizer, com naturalidade, que conhecia Ventura dos tempos de escola. Chamou-lhe “um cavalheiro perfeitamente razoável”. A frase ficou-me.
Recordou-me que, entre Luanda e Lisboa, entre Maputo e Funchal, há famílias compostas por primos de todas as cores — padres e ex-guerrilheiros, economistas e ex-coloniais — que se encontram à mesa, partilham memórias e discutem com fervor, sem nunca romper os laços.
Talvez Ventura, com toda a sua retórica inflamada, seja apenas mais um desses primos. Um homem que ora bate com a mão na mesa, ora oferece um prato de arroz. Um político que parece não saber se pertence à família ou à oposição — e que, por isso mesmo, encarna uma forma particularmente portuguesa de contradição.
Mas não nos deixemos enganar: a intimidade não absolve a injustiça. A cordialidade superficial pode esconder exclusão profunda. E a familiaridade é, por vezes, o disfarce mais eficaz da violência simbólica.
Compreender Ventura não é aceitá-lo — mas talvez seja um passo para desmontar, com mais precisão, a engrenagem ideológica que ele representa. Porque o verdadeiro perigo pode não estar no ódio declarado, mas na empatia distorcida.
By: Sousa Jamba